A gente tende a empurrar a obesidade para uma gaveta específica da medicina. A gaveta do metabolismo. Peso, glicose, colesterol, resistência insulínica. Tudo isso faz sentido, claro. Mas essa forma de olhar acaba escondendo uma consequência menos óbvia e, talvez por isso mesmo, mais perigosa: o impacto lento e cumulativo do excesso de peso sobre o cérebro.
A demência e a obesidade
Nem toda demência começa no neurônio. Uma parte relevante começa nos vasos que alimentam o cérebro. Aproximadamente um quinto dos casos de demência tem origem vascular, enquanto a maior parte restante está ligada à doença de Alzheimer. Entre pessoas acima dos 60 anos, algo entre 5% e 8% convive com algum grau de demência. Muita gente. Por outro lado, no Brasil, mais de 60% dos adultos vivem hoje com sobrepeso e cerca de 30% já se enquadram em obesidade. Esses números parecem falar de assuntos diferentes, mas contam, na verdade, capítulos distintos da mesma história.
O problema é que essa história sempre foi difícil de entender com precisão. Estudos observacionais sobre a relação entre obesidade e demência frequentemente se contradizem. Em alguns, o risco parece maior em quem pesa mais. Em outros, surge aquela curva estranha em forma de U, como se tanto o excesso quanto o baixo peso fossem igualmente perigosos.
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Foi tentando escapar desse labirinto que um grupo de pesquisadores resolveu usar uma abordagem diferente. Em vez de comparar estilos de vida, eles recorreram à genética. Usaram variantes genéticas conhecidas por predispor indivíduos a um índice de massa corporal mais alto ao longo da vida e observaram: será que esse grupo tem maior risco de demência vascular? Essa estratégia é chamada de randomização mendeliana. Na prática, é como acompanhar um experimento natural que começa no nascimento e se estende por décadas.
O que a análise mostrou
Cada aumento de cerca de 5 kg/m² no IMC veio acompanhado de um aumento no risco de demência de origem vascular, algo em torno de 60%. Em termos práticos, para uma pessoa com 1,70 m de altura, esses cinco pontos no IMC representam cerca de 14 a 15 quilos a mais na balança. É o tipo de ganho de peso que muita gente acumula ao longo dos anos sem perceber, até que vira o novo normal.
Curiosamente, esse mesmo padrão não apareceu para a doença de Alzheimer. O efeito foi específico para a demência vascular. Isso ajuda a entender por que tantos estudos anteriores pareciam confusos. Quando todos os tipos de demência são analisados juntos, sinais diferentes acabam se misturando e o que é causa real se perde no ruído estatístico.
Mais importante do que o número é a forma como ele foi obtido. Ao usar a randomização mendeliana, os pesquisadores conseguiram responder a uma pergunta que estudos observacionais não respondem bem: o aumento do peso vem antes do aumento do risco. A análise aponta para uma relação causal. Pessoas geneticamente predispostas a ter um IMC mais alto ao longo da vida apresentaram maior risco de demência vascular décadas depois.
Quando os autores foram atrás do caminho biológico que liga IMC alto à demência vascular, a pressão arterial apareceu como mediadora relevante. Ela não explica tudo, mas explica uma parte importante. A hipertensão respondeu por algo entre um quinto e um quarto do efeito total do IMC sobre o risco de demência vascular. Para ter uma noção de magnitude, aumentos relativamente comuns, da ordem de 18 a 24 mmHg na pressão sistólica, estiveram associados a um risco de 156% maior para demência vascular. No caso da pressão diastólica, elevações de 10 a 12 mmHg se associaram a um risco ainda mais alto (232%). A glicose também mostrou sinal. Já outros marcadores clássicos, como LDL, triglicerídeos e inflamação sistêmica, apareceram na análise, mas não explicaram o caminho principal nessa relação específica.
Dá para imaginar esse processo como um encanamento que trabalha sob pressão demais por tempo demais. O excesso de gordura corporal favorece rigidez arterial e piora a função do endotélio, a camada interna dos vasos que regula dilatação e fluxo. Aos poucos, a microcirculação do cérebro perde eficiência, o sangue chega com mais turbulência, e pequenas áreas vão acumulando dano. Não é um evento. É acúmulo.
O lado útil dessa história é que ela aponta para dois alvos diferentes no tempo. Reduzir gordura corporal é um jogo longo, mas vale. Controlar a pressão é um alvo mais imediato, mensurável, que pode ser atacado enquanto o peso ainda está mudando. Isso significa acompanhar a pressão com seriedade, tratar quando estiver acima do ideal e, ao mesmo tempo, construir rotinas que ajudam a reduzi-la: movimento regular, treino de força, sono consistente, comida de verdade com menos ultraprocessados e atenção ao sódio, quando isso for um problema para você.
Vista assim, a demência vascular deixa de parecer “um raio” que cai na velhice por acaso e passa a se parecer com um resultado. O cérebro não “vira” doente de um dia para o outro. Ele vai sendo impactado, ou protegido, pelos vasos ao longo de muitos anos.
Lasse Koivisto é membro da Healthy Longevity Medicine Society e mentor de diversas startups. Em 2020, iniciou um estudo aprofundado sobre longevidade e, recentemente, deu início ao projeto Alpha Origin, no qual publica semanalmente artigos que têm como propósito ajudar as pessoas a viverem mais e melhor na newsletter Longevidade News.
Em 2025 se tornou o primeiro colunista dos canais de comunicação das operadoras de saúde AMS e PASA em uma parceria para trazer mais informações aprofundadas e seguras para nossos beneficiários.



