Recentemente tivemos uma atualização nas diretrizes alimentares dos Estados Unidos, o que reacendeu um debate antigo sobre dietas. Low carb, low fat, mediterrânea, plant-based. A disputa nunca acaba. Mas trouxe novamente pro foco o tema dos alimentos ultraprocessados.
Não é novidade que eles deveriam ser praticamente banidos do nosso dia a dia. Não apenas pelos ingredientes de nomes indecifráveis, mas porque muitos deles são formulados para induzir repetição. Isso mesmo, te viciar. Comer e querer comer de novo. Mas de onde isso vem?
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No livro Energia sem limites, a médica Casey Means explica. Desejos intensos por comida não são falta de disciplina nem traço de personalidade. São sinais fisiológicos. Feedback vindo das células quando a alimentação passa mensagens contraditórias ao organismo.
A vontade de comer é regulada por uma rede complexa que envolve hormônios, cérebro, intestino e microbiota. Mas o que interessa para o tema desse texto é o seguinte: quando o corpo insiste em buscar certos alimentos, é porque suas necessidades reais não estão sendo atendidas. Diante disso, ele usa os mecanismos disponíveis para aumentar a chance de ingestão. Fome, busca por recompensa, preferência por alimentos densos em energia.
Os ultraprocessados entram exatamente aí. Eles estimulam os circuitos de recompensa, mas falham em gerar saciedade adequada. O corpo recebe prazer, mas não recebe a informação de que já teve o suficiente. O resultado é comer mais sem perceber.
O impacto do pico glicêmico
Um ponto central desse estímulo é o papel do pico glicêmico. Alimentos que elevam rapidamente a glicose no sangue provocam uma resposta intensa de insulina. Em muitos casos, essa resposta leva a uma queda subsequente da glicose para níveis abaixo do basal, algumas horas após a refeição, como um pêndulo empurrado forte demais, que não para no centro e acaba oscilando para o outro lado. Esse momento de queda é justamente quando surgem desejos fortes por carboidratos ou açúcar.
Muitas pessoas interpretam isso como “hipoglicemia”. Na prática, o problema não é uma glicose cronicamente baixa, mas uma oscilação exagerada causada pela própria escolha alimentar. Primeiro o pico. Depois a queda. E, com ela, fome, irritação e vontade específica por alimentos rápidos. O corpo não está falhando. Ele está tentando se estabilizar.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que a comida ultraprocessada tende a gerar ciclos de consumo. Ela cria instabilidade metabólica e, em seguida, oferece a falsa solução para o problema que ajudou a criar.
Essa lógica foi demonstrada de forma elegante em um estudo conduzido pelo Dr. Kevin Hall, publicado em 2019 na Cell. Já comentamos esse trabalho em outra edição da Longevidade News, mas vale repetir pela relevância. Em um ambiente controlado, participantes puderam comer à vontade dietas ultraprocessadas ou compostas por alimentos minimamente processados, com calorias e macronutrientes equivalentes.
Mesmo assim, ao consumir ultraprocessados, as pessoas comeram cerca de 500 calorias a mais por dia e ganharam peso. Quando passaram para comida de verdade, comeram menos, perderam peso e apresentaram maior sinalização de saciedade. Os mesmos indivíduos. Mensagens alimentares completamente diferentes.
Isso mostra que o ponto central não é força de vontade. É comunicação. Quando a comida envia sinais claros, o corpo responde com equilíbrio. Quando envia sinais confusos, o desejo aumenta.
Entender isso muda a conversa e faz a gente pensar diferente. O desejo por certos alimentos não define quem a gente é. Ele reflete, muitas vezes, o ambiente alimentar ao qual estamos expostos. Ajustar esse ambiente costuma ser mais eficaz do que travar uma disputa constante contra o próprio corpo.
Lasse Koivisto é membro da Healthy Longevity Medicine Society e mentor de diversas startups. Em 2020, iniciou um estudo aprofundado sobre longevidade e, recentemente, deu início ao projeto Alpha Origin, no qual publica semanalmente artigos que têm como propósito ajudar as pessoas a viverem mais e melhor na newsletter Longevidade News.



